quarta-feira, 23 de setembro de 2009

PSD sem chama e Cavaco calado


A campanha do PSD segue em tom penoso, sem chama, e com o partido em perda evidente, falando de um país em que, creio eu, poucos se reverão: um país onde "uma televisão foi silenciada" (erro: foi um noticiário que mudou), um "director de um jornal de referência escutado" (mentira, as escutas que o director do "Público" quis fazer crer que o tinham como alvo já foram desmentidas, até pelo próprio) para se chegar ao cúmulo de uma "asfixia democrática" que mal se compagina com visitas elogiosas à Madeira e felicitações a Alberto João Jardim. O PSD, por muito que o queira negar, desdenhou as próprias forças, colou-se demasiado a Belém, apostou forte nesta tese e, a uma semana do fim da campanha, a tese esboroa-se porque de Belém, de onde menos se esperaria, veio o erro fatal.

De Cavaco, afinal o grande inspirador da caminhada de Manuela Ferreira Leite, veio o gesto que porventura matará as aspirações do PSD. E tudo em silêncio, sem uma justificação, sem uma palavra e sem que, entre os sociais-democratas, apareça alguém com outra tese (o perigo de uma aliança com o BE é frágil), com uma ideia inspiradora que possa levar o partido até às urnas com a mesma confiança que acalentava desde o final das Europeias, e que contrarie com eficácia o óbvio aproveitamento que o PS vai fazendo da situação.

A caminhada penosa que vai levar o PSD até às urnas só tem paralelo com o silêncio de Cavaco Silva, comprometido com os graves acontecimentos políticos revelados pelo DN na sexta-feira passada.

Fernando Lima não era um assessor qualquer. E não era, por trabalhar com Cavaco Silva há mais de 20 anos, em concreto, desde 1985. Desde sempre, desde que Cavaco começou a ser alguém na política, a seu lado estava Fernando Lima. E não estava por estar. Estava por convicção e por uma amizade que se foi cimentando entre os dois. Quem nos jornais lidava com Fernando Lima sabia bem o que ele representava junto de Cavaco Silva, o que já representara no Governo, o que era agora em Belém. Lima já não era apenas um assessor, porventura o mais importante de todos. Era bem mais do que isso. Ele e o presidente sempre estiveram juntos, nutriam amizade um pelo outro, chegaram ao cúmulo da confiança de ter escrito ao mesmo tempo as suas memórias, cada um em sua função, é certo, mas com Lima a contar o que em certa medida Cavaco não podia fazer, completando-lhe, assim, discretamente, a sua própria memória.

Discretamente é um advérbio que se aplica bem ao assessor agora despedido de Belém, pois era dessa forma que sempre cuidava de aplanar o caminho que o seu "chefe" ia pisando. A sua demissão foi um choque. Quem conhece um e outro sabe o que este corte significa. E é por isso que mal se entende que Fernando Lima tenha saído de Belém sem uma palavra, apenas com uma fuga de informação para a Lusa dando conta da demissão e com um "refresh" no site presidencial que limpou num segundo o seu nome do rol dos que colaboravam com o presidente.

Que Cavaco não fale sobre as escutas, sobre a questão política, é grave. Todos temos de saber da sua boca se o Palácio de Belém se enlvolveu na criação de um clima que denegrisse o Governo ou se se tratou de um acto isolado do assessor e desconhecido do presidente. Que nada diga sobre isto, é muito grave e comprometedor. Que não tenha tido uma palavra sobre o seu assessor, este assessor, é, apenas, feio.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Crime Público


Portanto, o Governo está a espiar a Presidência da República!
Gravíssimo!
Que fazer?
Há várias alternativas para um presidente espiado.
Denunciar o Governo espião e dar-lhe um ralhete exemplar em público (nunca no "Público") utilizando uma comunicação nacional na TV como o fez com irrepreensível dramatismo e inigualável teatralidade com o estatuto dos Açores. Desta vez, teria de incluir a demissão do Parlamento e a convocação de novas eleições.
O caso não seria para menos.
Um governo a usar serviços secretos do Estado para espiar outro órgão de soberania exige demissões e eleições.
Mas não.
O presidente da República, o mais alto magistrado da nação, o comandante em Chefe das Forças Armadas, sabe que está a ser espiado.
Tem a certeza disso porque, da sua doutrina passada ficou o axioma de que "raramente se engana e nunca tem dúvidas".
Estando a ser espiado qual é a actuação realmente presidencial para este caso? Exigir do procurador-geral da República uma investigação imediata?
Convocar o Conselho de Estado (já com a respeitabilidade recuperada desde a saída de Dias Loureiro)?
Fazer uma comunicação ao Parlamento como é seu privilégio e, neste caso, obrigação? Nada disso!
A Presidência de Cavaco Silva, através da sua Casa Civil, decide encomendar (mandar fazer in: Dicionário Porto Editora) uma reportagem a um jornal de um amigo.

Como os jornalistas são por vezes um bocado vagos e de compreensão lenta, a Casa Civil da Presidência da República achou por bem ser específica na encomenda dando um briefing claro a pessoa de confiança no jornal.
"Vais falar com fulano e pergunta-lhe por sicrano, vais aqui, vais ali, fazes isto e aquilo e trazes a demasia de volta".
O homem ainda tentou cumprir com a incumbência, mas a coisa não tinha pés nem cabeça e parece que lhe disseram isso repetidamente.
Por isso, logo, por causa disso, houve mais um ano e meio de fartar espionagem enquanto no Pátio dos Bichos continuavam todos a ouvir vozes

Cavaco Silva deve ter tido uma birra monumental com a sua Casa Civil e mandou perguntar ao amigo do jornal:
"Sócrates está quase a ser reeleito e essa notícia não sai"?
Como o que tem de ser tem muita força, a história lá saiu.
Mal-amanhada, mas era o que se podia arranjar.
Lá se meteu a Madeira no meio porque, como ninguém gosta do Jardim, gera-se logo um capital de boa vontade.
Depois, como tinha pouca substância, puseram na mesma página duas colunas ao lado a dizer que, há uns anos, o procurador-geral da República tinha dito que também estava a ser escutado, e a encomenda ficou mais composta.
Que interessa que tudo isto seja bizarramente inverosímil?
Nos média, o que parece, é.
Cavaco Silva julga que está a ser escutado, portanto, está a ser escutado, tanto mais que o seu recente depoimento presidencial é que "não é ingénuo".
Com tudo isto, fica-me uma certeza.
O trabalho de reportagem do "Diário de Notícias" é das mais notáveis e consequentes peças jornalísticas na história da Imprensa em Portugal.
O e-mail com registos claros da encomenda feita por Fernando Lima não é "correspondência privada" que se deixe passar pudicamente ao lado.
É uma infâmia pública de gravidade nacional que exige denúncia.

Invocar aqui delações, divulgação de fontes ou violação de correspondência é desonesto.
Ao ver o presidente e a Casa Civil metidos nisto fica-me também uma inquietante dúvida.
Aníbal Cavaco Silva, referência do PSD, ainda tem condições para continuar a ser o presidente de Portugal depois de causar uma trapalhada desta magnitude a dias das eleições?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Sucesso ou Fracasso

Duas empresas de calçado, uma de José Sócrates e outra de Ferreira Leite, querem apostar na exportação de sapatos para a Índia.

Assim, decidem deslocar-se àquele país para fazerem o levantamento das potencialidades futuras de mercado naquele país.

Depois de alguns dias de pesquisa, Ferreira Leite enviou o seguinte fax para a empresa:
"Cancelem, parem, desistam do projecto de exportação de sapatos para a Índia.
Aqui ninguém usa sapatos."

Por seu turno, José Sócrates mandou o seu:
"Avancemos, com confiança e ambição, tripliquem o projecto da exportação de sapatos para a Índia.
Aqui ninguém usa sapatos, ainda."

Conclusão:
A mesma situação foi um tremendo obstáculo para Ferreira Leite e uma fantástica oportunidade para José Sócrates.

A descrença e a desistência de Ferreira Leite conduziu à sua falência.
A confiança e a ambição de José Sócrates determinou o sucesso do seu projecto.

"OS DESCRENTES ACHAM QUE O VENTO GEME, OS CONFIANTES ACHAM QUE ELE CANTA".
A vida é como um espelho que devolve a cada pessoa o reflexo da sua própria maneira de encarar o mundo.
E isso faz TODA a diferença.