domingo, 10 de julho de 2011

Afinal o problema não era Sócrates


De repente, percebeu-se que as agências de rating se estão marimbando para quem dirige o país, ao contrário do que tantas luminárias pensavam.
Tanto faz ser José como Pedro.
Tanto faz apresentarmos vários PEC como lançarmos um imposto extraordinário sobre os rendimentos.
Tanto faz aplicar orçamentos restritivos como assinar acordos ainda mais restritivos com a União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional.
Tanto faz dizermos que vamos privatizar duas empresas como que vamos privatizar cinco ou mais.
Para as agências de rating, somos lixo e ao lixo devemos voltar.

As doutas personalidades que em Janeiro diziam gravemente que não se devia criticar as agências - do mais alto magistrado da nação a banqueiros, empresários, gestores, académicos e todos os fundamentalistas de serviço - explodem agora de indignação com o que consideram ser uma injustiça, uma ignomínia, uma traição.

Pois é, afinal o problema não era Sócrates e o seu Governo.

Com Passos a fazer tudo direitinho, a fazer anda ainda mais do que lhe mandam, a carregar mais pesadamente a nossa cruz de austeridade, com taxas de juro a começarem a cair, os rapazolas da Moody's ignoram tudo olimpicamente e dizem que não vamos cumprir a meta do défice em 2013 nem voltar aos mercados nessa altura - e zás, fazem a notação da nossa dívida decrescer quatro níveis para lixo, apesar de dizerem que levaram em consideração o acordo com a troika e o imposto extraordinário !

É obra!
Que quererão eles ?
Que uma semana depois das medidas serem anunciadas, tudo estivesse resolvido ?
E quem se julgam eles para passar um atestado de completa incompetência à UE, BCE e FMI ?

Se esta rapaziada só entende a linguagem do dinheiro, então suspendamos todas as avenças com a Moody's.
Instituições Públicas, República, bancos, empresas cotadas devem fazer este movimento.
Façamos o que eles nos dizem: poupemos.
E comecemos pelas avenças que lhes pagamos
.
Só assim as três agências norte-americanas deixarão de dominar 95% do mercado.
E só assim as coisas começarão a mudar.

Excerto de texto de Nicolau Santos - 9.Julho.2011

sábado, 9 de julho de 2011

O Voo dos Abutres


O objectivo último é a Europa.
O euro e, a seguir, a própria União Europeia.
É preciso ser cego para ainda não o ter percebido.

Dois dias úteis depois de o Governo mostrar o seu programa na Assembleia da República e anunciar que ia agir mais além e mais depressa nos sacrifícios pedidos aos portugueses e impostos pela troika, a agência de notação de crédito Moody's desceu a classificação da dívida pública portuguesa para o nível de "lixo".

Fê-lo numa terça-feira ao final da tarde, mesmo a tempo de tentar agravar as condições de financiamento do leilão do dia seguinte, onde Portugal ia negociar novo empréstimo intercalar de mil milhões.

Foi a quinta vez, no prazo de um ano, que a Moody's nos atacou e quatro delas na véspera de um leilão da dívida portuguesa.
Obviamente que não é por acaso: é de propósito.

Para aqueles que, ainda há pouco tempo,
acolhiam com mal-disfarçada satisfação as notícias dos sucessivos downgradings que as agências nos aplicavam, vendo nisso mais um sinal da má governação de José Sócrates e Teixeira dos Santos;

Para aqueles que sustentavam que nada do que aconteceu na cena internacional justificavam as dificuldades das contas públicas;

Para aqueles que achavam que para diminuir a despesa pública bastava fechar algumas dezenas ou centenas de organismos do Estado, desaparecendo também por magia os seus funcionários e respectivos custos;

Para aqueles que asseguravam que era preciso pedir mais sacrificios aos portugueses do que os que já constavam do PEC3, aprovado em 2010;

Para aqueles que imaginaram que o pedido de ajuda externa tudo resolveria, eis uma amarga lição.

Mal apresentaram o programa, mal se apresentaram em Bruxelas e à troika. mal começaram a governar, e vem de lá a Moody's e diz o que pensa sobre os esforços do novo governo: "LIXO".


Excerto de texto de Miguel Sousa Tavares, 09/7/2011.

Privatize-se


Privatize-se tudo.
privatize-se o mar e o céu,
privatize-se a água e o ar,
privatize-se a justiça e a lei,
privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho,
sobretudo se for diurno e de olhos abertos.

E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados,
entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.

Aí se encontra a salvação do mundo...
e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.

José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pág. 148