sexta-feira, 3 de maio de 2013

Divida Alemã

É bom lembrar a data: 23 de Fevereiro de 1953...
Para que a memória não se apague … Fez dia 23/2/2013, 60 anos!
Há que continuamente lembrá-los que eles têm tendência a fazerem-se de esquecidos!
Acordo de Londres sobre as Dívidas Alemãs | Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a Espanha, Grécia e Irlanda.

O Acordo de Londres de 1953 sobre a divida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça, onde estava concentrada a parte essêncial da dívida.

A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra.Os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso. Foi perdoada cerca de 50% (Entre os paises que perdoaram a dívida estão a Espanha, Grécia e Irlanda) da dívida e feito o reescalonamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos 1920.

O acordo de pagamento visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efectiva de pagamento.

O acordo adoptou três princípios fundamentais:
1. Perdão/redução substantial da dívida;
2. Reescalonamento do prazo da divída para um prazo longo;
3. Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.

O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afectos ao serviço da dívida nao poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5 %.

A grande preocupação foi gerar excedentes para possibilitar os pagamentos sem reduzir o consumo. Como ponto de partida, foi considerado inaceitável reduzir o consumo para pagar a dívida.
O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situacao de carência durante a qual só se pagaram juros.
Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres eram impostas também condições aos credores - e não só aos paises endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da Alemanha.

Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o superavit da balança comercial. 0 que, "trocando por miúdos", significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de dívisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais.
EM CONTRAPARTIDA, os credores obrigavam-se também a permitir um superavit na balança comercial com a RFA - concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem.

Hoje, pelo contrário, os países do Sul são obrigados a pagar o serviço da dívida sem que seja levado em conta o défice crónico das suas balanças comerciais

(Marcos Romão, jornalista e sociólogo. 27 de Fevereiro de 2013)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Agora sou SEXALESCENTE, uhau

 

 
ALTO  !!
Já não sou SEXAGENÁRIO
Sou SEXALESCENTE
*****
 
«Se estivermos atentos, podemos notar que está surgindo uma nova faixa social, a das pessoas que estão em torno dos sessenta/setenta anos de idade, os SEXALESCENTES é a geração que rejeita a palavra "sexagenário", porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer.

Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica - parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.

Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta/setenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória.

São homens e mulheres independentes, que trabalham há muitos anos e que
conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram, durante décadas, ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram há muito a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.
Talvez seja por isso que se sentem realizados...
Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram gozam plenamente cada dia sem medo do ócio ou solidão. Desfrutam a situação, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabe bem olhar para o mar sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um 5.º andar....

Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar.

Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude em que eram tantas as mudanças, parou e refletiu sobre o que na realidade queria.
Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas... Mas cada uma fez o que quis : reconheçamos que não foi fácil, e no entanto continuam a fazê-lo todos os dias.

Algumas coisas podem dar-se por adquiridas.

Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos "sessenta/setenta", homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe e até se esquecem do velho telefone para contatar os amigos - mandam e-mails com as suas notícias, ideias e vivências.

De uma maneira geral estão satisfeitos com o seu estado civil e quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos senti mentais.

Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos.

Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra...

... Os homens não invejam a aparência das jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um terno Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de um modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na década dos sessenta/setenta, como tem sido seu costume ao longo da sua vida, estão estreando uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos e agora já não o são. Hoje estão de boa saúde, física e mental, recordam a juventude mas sem nostalgias parvas, porque a juventude ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas.
Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios...Talvez por alguma secreta razão que só sabem e saberão os que chegam aos 60/70 no século XXI!
».
 
Autora : Mirian Goldenberg .

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Para a compreensão de Portugal


Examinemos os seguintes casos, ocorridos na mesma semana:
Um comandante da polícia desejou que alguns concidadãos tivessem "relações sexuais incríveis" e perdeu o seu emprego.
Um primeiro-ministro desejou que alguns concidadãos emigrassem e manteve o seu.

Este é um país em que desejar felicidade (ainda por cima através de relações sexuais incríveis, que é a forma mais alta de felicidade) dá despedimento ou, pelo menos, processos disciplinares e outras chatices.

Acabei por não saber ao certo o que aconteceu ao comandante porque tenho andado ocupado a tentar manter relações sexuais incríveis, como é próprio desta época festiva.
Mas o facto permanece: desejar felicidades, em Portugal, causa mais engulhos do que desejar transtornos.

Vamos por partes.
O comandante da polícia municipal de Coimbra enviou um e-mail de boas festas aos funcionários da autarquia mas, dizem os jornais, enganou-se no anexo.
Aqui está o primeiro elemento estranho da história.

O homem não se enganou no anexo, enganou-se no e-mail.
O anexo era a única coisa interessante daquela peça de correspondência, uma vez que continha o desejo de "relações sexuais incríveis" e fotografias de senhoras capazes de as proporcionar.
João Paulo Barbosa de Melo, presidente da autarquia de Coimbra, instaurou um infame processo disciplinar ao comandante, pretextando que "a mensagem tinha conteúdos que não se coadunavam com o prestígio daquela câmara".
Ora, trata-se de uma alegação falsa.
Sou um velho apreciador de conteúdos que não se coadunam com prestígios, e o mail do comandante não os exibia.
Nenhuma das senhoras está completamente despida e a própria expressão "relações sexuais incríveis " é repugnantemente prestigiosa.
Não é o tipo de coisa que se deseje numa linguagem tão pouco vernacular.
O desejo está expresso de um modo tão formal que quase tira a vontade de o concretizar, como se o comandante tivesse dito: "Espero que desfrutes de sensações extremamente agradáveis ao nível da genitália."
Não diz.
No entanto, não é por isso que o pobre polícia está a ser processado, mas sim porque o presidente da Câmara teme que o seu prestígio esteja posto em causa.
E ai de quem se interponha entre um autarca e o prestígio.

Por outro lado, o primeiro-ministro também formulou um desejo de Natal: que os professores abandonem a família, os amigos e a sua vida em geral e emigrem.

Ainda assim, não atentou contra o prestígio de qualquer instituição.
Se um almirante sugerir a um grupo de passageiros que se atire borda fora, só para ver se o barco se torna mais fácil de controlar, perde um bocadinho de prestígio. Mas o que é inaceitável noutros ofícios, em política é bom senso.
Já era conhecida a sugestão que os racistas dão aos estrangeiros:
"Vai para a tua terra."
Agora, o primeiro-ministro tem uma recomendação para os nativos:
"Sai da tua terra."
Então esta terra, afinal, para quem será?

In "Visão" por Ricardo Araújo Pereira

domingo, 9 de outubro de 2011

Correcto pode não ser Justo

«Por coincidência, dois juízes encontram-se no estacionamento de um motel e, constrangidos, reparam que cada um estava com a mulher do outro.

Após alguns instantes de silêncio, mas mantendo a compostura própria de magistrados, em tom solene e respeitoso, um diz ao outro:

- Nobre colega, não obstante este fortuito imprevisí­vel, sugiro que desconsideremos o ocorrido, crendo eu que o CORRECTO seria que a minha mulher venha comigo, no meu carro, e a sua mulher volte com Vossa Excelência no seu.

Ao que o outro respondeu:

- Concordo plenamente, nobre colega, que isso seria o CORRECTO, no entanto, não seria JUSTO, levando-se em consideração que vocês estão saindo e nós estamos entrando... »

domingo, 10 de julho de 2011

Afinal o problema não era Sócrates


De repente, percebeu-se que as agências de rating se estão marimbando para quem dirige o país, ao contrário do que tantas luminárias pensavam.
Tanto faz ser José como Pedro.
Tanto faz apresentarmos vários PEC como lançarmos um imposto extraordinário sobre os rendimentos.
Tanto faz aplicar orçamentos restritivos como assinar acordos ainda mais restritivos com a União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional.
Tanto faz dizermos que vamos privatizar duas empresas como que vamos privatizar cinco ou mais.
Para as agências de rating, somos lixo e ao lixo devemos voltar.

As doutas personalidades que em Janeiro diziam gravemente que não se devia criticar as agências - do mais alto magistrado da nação a banqueiros, empresários, gestores, académicos e todos os fundamentalistas de serviço - explodem agora de indignação com o que consideram ser uma injustiça, uma ignomínia, uma traição.

Pois é, afinal o problema não era Sócrates e o seu Governo.

Com Passos a fazer tudo direitinho, a fazer anda ainda mais do que lhe mandam, a carregar mais pesadamente a nossa cruz de austeridade, com taxas de juro a começarem a cair, os rapazolas da Moody's ignoram tudo olimpicamente e dizem que não vamos cumprir a meta do défice em 2013 nem voltar aos mercados nessa altura - e zás, fazem a notação da nossa dívida decrescer quatro níveis para lixo, apesar de dizerem que levaram em consideração o acordo com a troika e o imposto extraordinário !

É obra!
Que quererão eles ?
Que uma semana depois das medidas serem anunciadas, tudo estivesse resolvido ?
E quem se julgam eles para passar um atestado de completa incompetência à UE, BCE e FMI ?

Se esta rapaziada só entende a linguagem do dinheiro, então suspendamos todas as avenças com a Moody's.
Instituições Públicas, República, bancos, empresas cotadas devem fazer este movimento.
Façamos o que eles nos dizem: poupemos.
E comecemos pelas avenças que lhes pagamos
.
Só assim as três agências norte-americanas deixarão de dominar 95% do mercado.
E só assim as coisas começarão a mudar.

Excerto de texto de Nicolau Santos - 9.Julho.2011

sábado, 9 de julho de 2011

O Voo dos Abutres


O objectivo último é a Europa.
O euro e, a seguir, a própria União Europeia.
É preciso ser cego para ainda não o ter percebido.

Dois dias úteis depois de o Governo mostrar o seu programa na Assembleia da República e anunciar que ia agir mais além e mais depressa nos sacrifícios pedidos aos portugueses e impostos pela troika, a agência de notação de crédito Moody's desceu a classificação da dívida pública portuguesa para o nível de "lixo".

Fê-lo numa terça-feira ao final da tarde, mesmo a tempo de tentar agravar as condições de financiamento do leilão do dia seguinte, onde Portugal ia negociar novo empréstimo intercalar de mil milhões.

Foi a quinta vez, no prazo de um ano, que a Moody's nos atacou e quatro delas na véspera de um leilão da dívida portuguesa.
Obviamente que não é por acaso: é de propósito.

Para aqueles que, ainda há pouco tempo,
acolhiam com mal-disfarçada satisfação as notícias dos sucessivos downgradings que as agências nos aplicavam, vendo nisso mais um sinal da má governação de José Sócrates e Teixeira dos Santos;

Para aqueles que sustentavam que nada do que aconteceu na cena internacional justificavam as dificuldades das contas públicas;

Para aqueles que achavam que para diminuir a despesa pública bastava fechar algumas dezenas ou centenas de organismos do Estado, desaparecendo também por magia os seus funcionários e respectivos custos;

Para aqueles que asseguravam que era preciso pedir mais sacrificios aos portugueses do que os que já constavam do PEC3, aprovado em 2010;

Para aqueles que imaginaram que o pedido de ajuda externa tudo resolveria, eis uma amarga lição.

Mal apresentaram o programa, mal se apresentaram em Bruxelas e à troika. mal começaram a governar, e vem de lá a Moody's e diz o que pensa sobre os esforços do novo governo: "LIXO".


Excerto de texto de Miguel Sousa Tavares, 09/7/2011.

Privatize-se


Privatize-se tudo.
privatize-se o mar e o céu,
privatize-se a água e o ar,
privatize-se a justiça e a lei,
privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho,
sobretudo se for diurno e de olhos abertos.

E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados,
entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.

Aí se encontra a salvação do mundo...
e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.

José Saramago - Cadernos de Lanzarote - Diário III - pág. 148