
Capoulas Santos
Registo, 24/5/2001
PSD, CDS, PCP e BE são os partidos com assento parlamentar e os principais adversários do PS no confronto eleitoral que estamos a viver, que deveria ser esclarecedor e leal, como ditam as boas regras da democracia.
Infelizmente não é assim.
O PS tem mais um adversário e bem mais poderoso do que os quatro partidos parlamentares todos juntos.
Refiro-me à comunicação social nacional.
É uma vergonha e isto sim, um verdadeiro atentado à democracia e ao Estado de Direito, o comportamento da generalidade da comunicação social nacional nesta campanha eleitoral, para a qual só há um objectivo: abater José Sócrates a qualquer preço.
Quanto aos canais de televisão, se alguém tem duvidas, participe numa acção do PS e depois veja como é noticiada.
Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
Os ângulos das imagens são os mais vesgos possíveis, buscam-se sempre as clareiras, quando existem, filmam-se os bastidores e procura-se sempre um "fait-divers" ou um ou outro protagonista lateral que dê uma imagem negativa.
Há sempre apartes mordazes e até, geralmente, o tom de voz dos "jornalistas" procura ser sempre o mais acintoso possível.
Se assim fosse com todos os concorrentes, até se poderia dizer que se tratava apenas de opções estéticas de fazer televisão.
Mas, infelizmente, não é.
Há dias até achei graça à forma como foi documentada uma acção recente do BE. Primeiro a sala vazia e, depois, imagens sucessivas mostrando o seu enchimento progressivo até ficar claramente demonstrado que a sala estava "cheia que nem um ovo", com os 1000 participantes anunciados pelo locutor.
No mesmo dia, por acaso, o Secretário-Geral do PS teve um almoço na sua breve passagem por Elvas e no qual participei.
Estavam cerca de 2000 pessoas e tiveram até de ser montadas mesas num varandim do pavilhão para acomodar todos os participantes.
Pois, para alem das imagens fugirem de dar uma perspectiva geral do recinto, para um dos jornalistas de serviço que ouvi, a sala... "estava compostinha".
Mas, nas televisões, a manipulação é ainda mais grave nos espaços de opinião.
Para além do inefável Prof. Marcelo, que além de Conselheiro de Estado já foi líder e é um destacado militante do PSD, os demais "comentadores independentes" que desfilam em todos os canais destilando ódio a Sócrates são, desde candidatos a deputado "independentes" pelo mesmo partido, como por exemplo os de Bragança ou de Viana do Castelo, até "jornalistas" ou "analistas" que parecem ter saído vencedores do concurso "Quem Gosta Menos do Sócrates".
Para dar um arzinho de pluralismo também se convidam uns "socialistas", em permanência ou de vez em quando, caindo sempre a escolha, por coincidência, nos ressabiados de excelência como o ex Embaixador na UNESCO em Paris, Manuel Maria Carrilho, despedido por não respeitar orientações do governo, o ex-quase Ministro da Economia, Henrique Neto que nunca perdoou ter morrido na praia, ou o ex-ministro das Finanças e reformado do Banco de Portugal, Campos e Cunha que, ao que parece, saiu do governo quando o mesmo aprovou a incompatibilidade de acumulação parcial das pensões de reforma com os vencimentos.
Nos jornais o panorama é igual.
A quase totalidade dos comentaristas, alguns dos quais fazem uma "perninha" de analista nos telejornais, até fazem azia, os títulos arrepiam e as fotos abafam sempre, nas iniciativas do PS, qualquer visão global de multidão e procuram retratar Sócrates numa perspectiva tão antipática ou apagada quanto possível. Ainda há dias, no DN, uma página, noticiando o comício de Évora da véspera, colocava Sócrates, sozinho, num palco vazio, a esfregar um olho. Na página ao lado aparecia um Passos Coelho, sorridente, envolto numa multidão multicolor e embandeirada.
António Guterres tinha uma frase lapidar para definir situações destas: "É a vida..."
Apesar de tudo, depois de sucessivas campanhas de calunia e de difamação à honra e carácter de José Sócrates, após 6 anos de governação na mais dura e impiedosa das crises que o país conheceu em muitas décadas e cuja origem todos conhecem, depois do derrube do governo pela aliança negativa de comunistas radicais com conservadores no pior momento possível, depois da troika e do FMI, depois de tudo isto, o PS continua a disputar a liderança das opções de voto dos portugueses e, estou certo, irá ganhar as eleições de 5 de Junho.
Só é pena nunca podermos vir a saber qual seria o resultado, se tivesse havido jogo limpo nesta disputa.
Capoulas Santos
Registo, 24/5/2001
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