
Cavaco silva suspeita que o governo o está a vigiar.
Apesar de formuladas com um ponto de interrogação, para permitir o recuo estratégico, há suspeitas que valem tanto como acusações.
Estamos perante um caso destes.
Foi por isso que ontem (18.Ago.09) se esperou o dia inteiro pelo desmentido da Presidência da República.
Não chegou.
O murro foi dado, a mão escondida, mas o rasto está lá e segue direitinho até ao Palácio de Belém.
O silêncio do Presidente não o iliba; pelo contrário: responsabiliza-o por inteiro.
Ou foi ele, Cavaco, quem orquestrou a notícia ou então não quis distanciar-se dela, o que vai dar ao mesmo.
O espanto é por isso geral: será possível que Cavaco subscreva as perguntas assassinas do membro da Casa Civil que falou com o "Público"?
Será possível que Cavaco tenha enviado um recado tão destrutivo através de uma fonte anónima?
Será possível que Cavaco estilhace, subitamente, o formalismo obrigatório nas relações institucionais entre a Presidência da República e o Palácio de S. Bento?
Será possível que um político tão experiente como Cavaco permita que um seu subordinado fale sem autorização aos jornais, ainda por cima de um assunto tão delicado e grave?
Será possível que Cavaco use um testa-de-ferro para formular suspeitas sem avançar qualquer prova material de que o governo está, de facto, a escutá-lo?
Será possível que Cavaco não entenda a fragilidade dos argumentos usados pelo membro da sua Casa Civil?
Será possível que Cavaco ignore os seus constantes apelos ao respeito pela justiça e faça o que tantas vezes tem condenado?
Será possível que Cavaco não tenha percebido que há dúvidas que, a serem colocados, só o podem ser sem disfarces?
Será possível que Cavaco não saiba que, a fazer como fez, só desvalorizou uma suspeita (as escutas do governo) que é legítimo formular desde que sustentada e assumidamente?
Por último: será possível que Cavaco não entenda que, assim, só ajuda Sócrates a vitimizar-se?
Finalmente: Cavaco quer ser árbitro ou jogador, presidente ou primeiro-ministro?
por André Macedo, Publicado in Jornal "i" em 19 de Agosto de 2009
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